domingo, 21 de janeiro de 2007

Cibercultura e a arte esquizofrénica

«Freud is dead and the myth of unified inidividual has been destroyed. We are each made up of many selves: de-centred, distributed, and tele-schizophrenic. Our minds have an infinity of phreno-fractals constantly creating alternative realities in wich every thread of meaning is woven by us.» (THE A-Z OF INTERACTIVE ARTS, Roy Ascott)
Cibercultura é a cultura que emerge da rede computacional, quer os seus fins sejam comunicativos, de entretenimento ou económicos. Trata-se da união entre a cultura e a técnica, da telemática enquanto produtora de cultura. A cibercultura começou com os movimentos cyberpunk onde se desenvolveu uma estética específica. E no final dos anos 90 chega às universidades como objecto de estudo quer cultural, quer tecnológico.

A arte tecnológica começou nos anos 60. A primeira etapa antes das artes interactivas foi produzir ambientes, obras cibernéticas, uma arte que respondia ao utilizador e estava em permanente mutação. Construíam assim processos de feedback pré-determinados, no entanto, não evoluíam nos automatismos e na evolução que a própria máquina pode fazer.

As artes tecnológicas promoviam uma nova linguagem: a linguagem digital que potenciou a existência da arte interactiva:

Conectividade
A conectividade é uma representação chave das ciências cognitivas. Na arte digital também. O natural colabora com o artificial, e o artificial com o natural, surgindo uma nova simbiose.

Imersão
Novos interfaces serão e estão a ser criados até existir um perfeito: o interface que anula a existência de interface, ou seja, quando se deixa de ter consciência do interface. Assim como ouvimos, vemos ou sentimos na comunicação inter-pessoal, o mesmo irá acontecer nos outros tipos de comunicação. As paredes além de ouvirem também falarão.

Interactividade
A realidade e aquilo que a mesma significa resulta das interacções que actuam no nosso cérebro. Em complemento a essas interacções, os nossos corpos transportarão tecnologia que nos permitirá navegar na rede.

Transformação
Os nossos corpos estão a transformar-se. Novas experiências concretizam-se quer de imersão dos corpos na rede, quer de imersão da rede nos nossos corpos. A arte interactiva coloca-nos dentro da mesma, do seu sistema. Por conseguinte, deixa de haver espaços clássicos (2D ou 3D) pois a interacção dá-se a outro nível biológico.

Emergência
As manifestações dão-se de forma inesperada. A arte interactiva dá-se de forma não previsível e a experiência volta a ocupar um lugar de destaque na arte que se apresenta no Ciberespaço - o novo espaço de exposição. Emerge também uma nova percepção: a ciberpercepção; dá-nos uma consciência de que vivemos juntos num espaço que fica entre o virtual e o real, quase uma mundivisão.


A arte trabalhava o aspecto das coisas, o aspecto do mundo e o aspecto da pessoa. Mesmo com uma máquina fotográfica, o objecto da arte trabalhava sucessivamente o aspecto. As artes interactivas trabalham o que está para além da imagem, o que constituí a imagem e as conexões por detrás da mesma. Trabalha os sistemas, e as conexões do mesmo, a nova estética dos sistemas. A cibercultura fez emergir uma nova arte que se baseia no híbrido, no interactivo, na montagem, no hipermedia, e no interface, no futuro do homem (política).

O Self sempre foi fechado, determinava o homem e constituía a determinação do indivíduo, o seu instinto estava aprisionado pelo corpo. Bolter escreve que o a cibercultura, enquanto mistura da técnica e da cultura, pode libertar o Self do corpo e assim potenciar novas descobertas para o individuo. Questões políticas colocam-se e colocaram-se no início da Cibercultura com o Cyberpunk e explicam-se através desta libertação do Self. A questão da relação entre corpo e Self pode ser ultrapassada pela cibercultura. A escrita sempre foi uma forma de se ultrapassar a barreira corpo e a forma de entendermos o Self, com a Cibercultura a potência aumenta.

«Self - isolated, unconnected, alienated - is no longer a satisfactory modem of our being.» Homo Telematicus In The Garden of A-Life - Roy Ascott

O indivíduo, e a arte como reflexo do mesmo, potencia um movimento esquizofrénico de transformação do self, daquilo que nos determina para além do corpo. O corpo fica obsoleto perante esta transformação, e pretende-se como finalidade ligar o self à rede, e partir daí para novas formas de conhecimento e de existência. Roy Ascott defende que os artistas e os cientistas se devem unir pela criação de um mundo virtual onde a vida seja definida pelo homem e não pela natureza. Um mundo que seria esquizofrénico, onde a libertação de todos os Selfs em rede possivelmente geraria o caos num mundo que é ordenado.